Cigarro
Eu sou uma viciada nessa droga que ainda não descobri qual é. Deixe-me fazer minhas droguras de loucada. E ter crise de abstinência depois, e virar alguém certinha.
Mas será que já não deveria ?
Mania de seres-humanos. Não é uma substância que deleta esse fato ou que simplesmente aparece com ele. Ele está lá pra quem quiser ver.
Desligou seu telefone e olhou para ele, confuso. Não sabia o que fazer.
Não sabia o que fazer.
Então fez nada. Não ligou de novo. Não esperou por outras ligações. Não esteve ali. Desligou.
Olhava no relógio sem preocupações ou horários.
Livrou-se da realidade, do que a prendia e cutucava.
Mas não entrou em um estado torpe, nem menos arregalou os olhos para admirar os bonitos barracos que davam tchau pela janela.
Eram barracos feios, e tantos ônibus indo para casa. Não estava tão longe de casa, afinal.
Mais barracos feios. Desapontou-se ao ver vários ônibus enfileirados. Sua expressão transbordava "Não era isso que eu esperava."
Era terrivelmente apavorante, todo aquele ambiente, mas não era o que queria.
Saiu um ônibus enquanto o que ele estava dava a volta no quarteirão para achar um lugar para estacionar. Fingiu estar perdido para o cobrador, fazendo sua cara mais infantil, tentando uma peça sem necessidade. Encontrou homens limpando outro ônibus, e esperou pelo lado de fora.
Uma mulher sentou-se do seu lado, mas ele não lhe deu atenção. Não estava ali.
Não sabia o que fazer, e olhou para o relógio, tanto tempo sobrando.
Em seus sonhos, fugir de casa era mais legal.
Seus sonhos. Não os meus, os teus, os nossos. Os seus.
Outras pessoas conversaram alto, e claro que ele continuou não estando ali. Viajou em possibilidades e fantasias.
Desceu um ponto depois de onde seria certo porque esta não era sua linha. Vírgula.
Subiu umas ruas e as desceu e checava nas placas se era a direção certa mesmo mantendo a expressão de quem sabia que caminho seguir. Uma travessa pequena, crianças chegando em casa às suas costas. A mala desceu. Subiu o inflamável e cinzas.
O vento apagou. Outro.
E foram mais cinco além do primeiro até vir a idéia de proteger aquela porcariazinha.
E não sabia se estava dando certo, mas aquilo certamente estava pegando fogo.
E havia fumaça, mas não havia fogo.
Brasa.
E era possível sentir que desgostou assim como desligou, mas havia uma sensação de poder ali como na expressão de quem carrega uma arma.
Não importa se você vai destruir ao outro ou a si mesmo, leva quase a mesma quantidade de força e raiva e calibre para furar tecidos. E não é o momento de furar tecidos que vai mudar o puxão no gatilho, mas sim momentos antes, que você sente o peso metálico de ter o controle sobre pelo menos a morte de alguém e aquele poder se espalha por suas veias e antes que você se dê conta...
Bang! Bang! Você morreu.
É um espelho, nada além de um espelho.
E esse espelho fica tão insuportável que você precisa ferir aquele bostinha que só faz merda de alguma forma.
Oh, o sangue é tão belo, veja como você é forte e nem David você precisa ser porque você tem tecnologia do futuro.
Sons de realidade quebravam sua tentativa de melancolia. Mas conseguiu antes que sua saliva quebrasse a no meio. Ele ficou encarando, frustrado a melancolia frustrada também.
Jogou no chão e passou o pé por cima como se precisasse matar o inseto.
E seguiu seguindo tossindo sentindo desgostando desligando.
Ainda havia tempo, extendeu a mão para frente do rosto e baforou antes de inspirar profundamente.
Quer dizer, precisava além de comprar uma tentativa melhor, algo para manter seus anseios, algo melhor para afastar estes de quem não agüentaria esta dose de irrealidade.
Então ligou-se depois de um copo d'água.
E se arrependeu amargamente.
Ainda bem que não estou no estado irreversível e prejudicial.
Mas sim, estou prejudicial.
Você pode ter aprendido a lidar com não's, mas para mim é incrivelmente difícil achar um definitivo. E aceitar.
É incrivelmente difícil.
E mandam, mandaram, mandarão. O juízo manda não, e é claro que eu sei obedecer. Só perdi a prática.
Fique são.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
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Um comentário:
Eu diria que achei extramemente foda se eu me convecesse de que é 100% ficção. Vou tentar ser parcial por um segundo: eu adorei.
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